Verso & Prosa

Canções para ouvir na hora do recreio

Postado por Simão Pessoa

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Eu não estaria aqui, onde quer que esse aqui seja, definitivamente não estaria, se daquele rádio de válvulas não saísse pela primeira vez lá em nem sei quando, lá não sei mais em que priscas eras, o Carlos José cantando que vestida de branco de véu e grinalda lá vinha Esmeralda casar na igreja, uma balada triste como não sei o quê, um papo chororô que não tinha nada a ver com minhas bolas de gude, meus gibis do Cavaleiro Negro e meus gols ao estilo Dida, tudo num papo morbeza romântica que eu não entendia direito e até hoje idem, eu que certamente já tinha ouvido outras tantas músicas do Carequinha e do Arrelia, mas, vai entender, eu não sabia que aquela balada triste me ficaria velha amiga e companheira como a primeira, a mais antiga memória de um texto cantado em mi vida.

Definitivamente eu não estaria aqui, malgrado todo o Paulo Mendes Campos de depois, bengrado todos os relatórios do Graciliano em Palmeira dos Índios de após, eu aqui não estaria e nonada teria a ver com isso ao derredor se não viesse em seguida um chorrilho de outros textos em canção, coisas ainda mais lamentosas como a do campônio dizendo a sua amada, minha idolatrada diga o que quer, coisas até alegres como o Orlando Silva perguntando pra garota o que que há com a sua baratinha que não quer funcionar, sendo que baratinha evidentemente podia ser até um carro pequeno e a pequena podia ser até todas as curvas do circuito da Gávea.

As letras das músicas podiam ser tantas coisas e, já que eu ainda não sabia de baratinha alguma, eu ia simplesmente comendo todas as canções, e foram tantos outros textos musicados escapando das válvulas, coisas que nunca soube se geniais ou, quero beijar tuas mãos minha querida, se ingênuas, mas que marcam, fixam no cerebelo direito, entrecruzam com o PH dos hormônios à esquerda, e hoje me parecem a voz dos anjos condutores.

Dóris Monteiro eternamente tocando num dial qualquer da minha cuca bom mesmo é Café Capital, e eu, sem querer discutir com a memória, junto o café com o leite em pó da vaquinha Mococa que está mugindo, a vaquinha Mococa sempre dizendo, eu junto todos esses sons que vieram lá de trás, lá de quando ainda não havia mentalidade crítica, não se era sequer o garoto que amava os Beatles e o Dave Clark Five, era apenas um garoto jogando tudo pra dentro com o mesmo prazer que fazia com a bolacha Maria, aquela que borrava-se de manteiga, depois pregava-se outra por cima, apertava-se uma Maria amanteigada contra a outra Maria idem, e lambia-se gostoso tudo o que lhes escapava pelos buraquinhos, lambia- se sem saber que era o destino, lambuzava-se com todas essas músicas sem noção de que elas estavam moldando a existência de suas futuras palavras e sentimentos.

Todas até hoje na cabeça me lembrando que ninguém é de ninguém na vida tudo passa, que garota você é uma gostosura proibida pela censura, e que diante dessas palavrinhas que foram argamassando sei lá que sentido em mi vida, sei lá que frêmito em mi divinal querer, sei lá que mancha naquela toalha que esqueceste e onde estava escrito bom-dia, diante dessas notas mágicas eu só sei dizer, mais ou menos como Manuel Bandeira, que teve no porquinho-da-índia a sua primeira namorada, que a música de rádio foi a minha.

Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém é obrigado a me chamar de Paul Auster nem a acreditar no que vos digo, isto é apenas uma crônica ligeira, como o passo do elefantinho, mas me ponham fé que eu liguei o rádio de novo nessas músicas antigas apenas porque anunciaram e garantiram que o mundo ia não só se acabar, mas que o prefeito aproveitara a confusão para proibir a merenda politicamente incorreta nas escolas.

Eu, que de início ia escrever apenas para protestar contra essa intromissão na merenda das criancinhas alheias, foi só dar uma mordida no sanduíche de ovo frito que eu levava para o pátio no primário, ou antes ainda, foi só desembrulhar o sanduíche de ovo frito do papel de pão em que minha mãe embalava o torpedo calórico, ou talvez um pouco antes mesmo, foi já quando tirei o barbante que a dona Hilda laçava em volta de toda essa escultura de carinho e colesterol. Não sei. Foi por aí. Sei lá.

Sei que foi só puxar essa madeleine suburbana e já aí as músicas que me fizeram chegar até aqui começaram a tocar todas de novo, pois era um tempo em que não havia merenda errada e muito menos música certa, tanto as autoridades constituídas me deixavam em paz e orgulhoso com um sanduíche de fiambrada de porco Wilson como os espertos não me aborreciam se em tal noite eu queria que o mundo acabasse, pois, não tenho certeza se a vida era melhor ou pior, dá muita ilusão de ótica quando a gente olha o passado, mas visto assim do alto, olhando aqui de longe, todo mundo sempre parece mais feliz e menos complicado lá atrás.

Basta dizer que lá em casa mesmo tinha um bigorrilho e esse bigorrilho não só fazia mingau como tirava o cavaco do pau, e isso era suficiente para deixar a minha imaginação a mil, mais ensandecida que a do Pedrinho sob o pó de pirlimpimpim, uma imaginação suburbanamente sem preconceito, pois também já havia gente que levava uma maçã para o recreio e ninguém ria, assim como na vizinhança havia uma dona bem-feita de corpo, cheia da nota, mas que escrevia gato com jota e saudade com cê, e ninguém ria dela também, ninguém estava nem aí. O bom e o mau gosto, pelo menos em merenda e música, não eram assuntos de decreto, e eu só queria da primeira o tutano, que me prometia realçar o desenho dos bíceps, e da segunda, fica comigo esta noite, que me antecipasse, cantando, o mistério da vida, o prazer das palavras e o recreio futuro da boca molhada e ainda marcada pelo beijo seu.

Sobre o Autor

Simão Pessoa

nasceu em Manaus no dia 10 de maio de 1956, filho de Simão Monteiro Pessoa e Celeste da Silva Pessoa.
É Engenheiro Eletrônico formado pela UTAM (1977), com pós-graduação em Administração pela FGV-SP (1989).
Poeta, compositor e cronista.
Foi fundador e presidente do Sindicato de Escritores do Amazonas e do Coletivo Gens da Selva.

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