Musicoterapia

Herbert, Bi e Barone como o diabo gosta

Postado por mlsmarcio

Chegamos na casa do Bi, onde a entrevista foi marcada, e o Herbert ainda não tinha chegado. Quando ele chegou a gente já tinha conseguido entrevistar o Bi e o Barone um tempão, uma façanha que quase ninguém tinha conseguido até hoje.

Os Paralamas deram esta entrevista antes de sua música Luís Inácio e os 300 Picaretas ter sido censurada. Durante a entrevista, o Herbert nos disse que havia acabado de compor essa música e até cantarolou um pedaço.

Agora, depois do sucesso estrondoso da música, Herbert, Bi e Barone andam muito preocupados com o surgimento de um conjunto novo que foi lançado em Brasília para concorrer com o Paralamas do Sucesso: é o “Mar de Lamas do Congresso”. (C&P, junho de 1995)

Vocês estão vindo de onde e indo pra onde?

JOÃO BARONE – A gente tá vindo de umas apresentações no interiorzaço da Venezuela. Tocamos até em Puerto Ordaz, a uns setecentos quilômetros de Boa Vista. E agora vamos tocar num dos lugares mais históricos do rock, o Marquee, de Londres. A gente tem feito também muita temporada na Argentina.

Mas precisa ir tão longe pra dar show pra argentino? Vão tocar na Avenida Atlântica! Como é que vocês saíram do Circo Voador pro Mercosul?

BARONE – Em 85 os argentinos vieram pra cá, viram a gente no Rock in Rio e pegamos uma carona nessa repercussão. Em 86 teve um festival em Mendonza com a gente, a Blitz e um pessoal local. De lá mesmo arrumamos um show numa quebrada de Buenos Aires e aí começou, até a gente tocar no Estádio La Bombonera, junto com o UB 40. Os argentinos têm uma coisa fiel com a música, são muito anos 60, parece que eles é que inventaram o rock.

(CHEGADA DE BI RIBEIRO, QUE ENTRA LOGO NO ASSUNTO DA AMÉRICA LATINA)

BI – Na época do Alagados, 87-88, a gente começou a tocar no Chile. Três anos depois, quando lançamos uma compilação, voltamos lá e o próprio cara da gravadora falou: “O que vocês tão fazendo aqui? Não existe mais rock aqui!” “Mas você não acredita no nosso trabalho?” “Não.” Tinham cortado total o movimento nacional de rock. As rádios de rock só tocavam agora Julio Iglesias.

Vocês estão tocando mais no Brasil ou no exterior?

BI – Meio a meio. Porque a gente faz questão de tocar sempre aqui mesmo.

Ah, é? Então toca uma agora pra gente ver! Quantos shows vocês fazem por ano?

BARONE – Uns cem, cento e vinte…

Leva a patroa ou pra banquete não se leva marmita?

BARONE – Pô, por um momento eu tinha esquecido pra quem a gente tava dando entrevista…

Todo mundo tem essa fantasia sobre a vida na estrada, que rolam altas coisas, mas na verdade é chato pra cacete, né? Fica uma sensação de aeroporto-hotel-palco-hotel-aeroporto…

BI – É. Por isso a gente só viaja no máximo uns vinte dias direto. O máximo que a gente ficou fora foi no ano passado, quando ficamos três meses gravando um disco em Londres. Cara, deu um banzo…

E todas vocês têm filhos pequenos, né?

BARONE – Não, só eu e o Herbert. O Bi tem casal de tartarugas e casal de Rottweiller.

Aí quando ele voltou a tartaruga não reconhecia mais ele…

BARONE – Roberto Carlos inclusive fez uma música em homenagens as tartarugas trepando: O Côncavo e o Convexo.

BI – Já ouviram tartaruga transando? Faz um barulho gutural: uuuuh! Uuuh! É incrível. E já viram pau de tartaruga? Ele vai saindo assim… …e abre como uma flor. (SE ENTUSIASMA) É grande, é enorme, e tem uma chapeleta em leque, cara!

Mas como é que você sabe? Botou uma minicâmera dentro da tartaruga? Ou abriu uma revista de tartaruga pelada na frente dele? Mas vem cá, agora falando sério: nunca rolou de querer parar com tudo, ou então fazer uma carreira subsolo?

BARONE – Tipo Stevie Wonder e Ray Charles: “Não aguento mais ver a sua cara!” São treze anos juntos, cara… Tapa nunca rolou, mas um boca a boca…

Cumequié? Boca a boca? Hummm…

BARONE – Agora na Venezuela, por exemplo, a gente era dezoito, e tudo homem…

BI – Quando tem muito homem junto vira tudo italiano: fala alto, goza com os outros… A gente quando fala “não aguento mais” não tem nada a ver com os outros caras, é por querer ficar um pouco mais em casa. Só que aí a gente fica em casa e pensa: “Puta merda, eu queria era estar lá!”.

Qual a pior capital pra fazer show?

BI – Falam muito em Teresina, mas acho que a pior é Porto Velho. É um faroeste: ouro, drogas e revólver.

BARONE – Pô, Teresina tem uma feira nordestina sensacional!

Qual é o cu do mundo?

BARONE – Hermosilio, no México.

BI – (CONCORDA) Na fronteira com a Arizona. Temperatura: 51 graus. Às nove da manhã fazia 42 graus!

BARONE – Se não é o cu do mundo certamente é o buraco mais quente. O lado interessante disso foi a gente chegar lá no aeroporto, um voo charter pousando no meio do deserto.

BI – Era um festival chamado Rock Latino 93, com gente da Espanha, da Venezuela, da Argentina… O pessoal servia tequila dentro do avião e a gente chegou lá bêbado!

BARONE – E o pessoal da organização botou um monte de meninas, estudantes, das escolas lá, todas de camiseta amarela, e quando a gente saiu do avião gritavam: “Rola! Rola!”

Aí o Herbert tirou o boné e mostrou logo o careca… Mas que porra de Rola era essa?

BI – Era o nome de festival: Rock Latino.

Por falar em careca, o Herbert continua complexado?

BARONE – Não, teve uns fios que meio que ressuscitaram dos mortos, como Lázaro…

Foi o quê? Minoxidil? Titica de galinha? (COMO SE FOSSE UMA DEIXA DE TEATRO, ENTRA JUSTO O HERBERT) Pô, cara chegou bem na hora! A gente ia começar a contar nossas piadas de careca!

BARONE – Você falou que não era pra gente contar que você tinha feito implante, mas não teve jeito…

Bicho, tu virou flamenguista nos shows só pra poder amarrar aquela camisa rubro-negra na cabeça!

HERBERT – Vêm cá, vocês foram ao Metropolitan ver nosso show com o Barão Vermelho? Foi legal, né?

Foi ótimo! Inclusive a gente comentou antes: “Vamos ver de quem é a plateia. Se tiver um monte de gatinha, é do Paralamas. Se tiver um monte de punheteiro de camisa preta, é do Barão.” E tinha mais gatinha… Mas todas punheteiras, porque aquela calça do Frejat… Mas a gente tava falando dos piores lugares pra se fazer show.

HERBERT – Os subúrbios de Buenos Aires, não pelos lugares, mas porque os shows começam às cinco da manhã! As discotecas só abrem às duas! Aliás, as pessoas não imaginam o desgaste físico fodido que a gente tem. É foda! Meu caseiro, por exemplo, achava que eu era um bosta n’água, que dorme pra caramba, tá sempre cansado, então levei ele num show pra ele ver o que é trabalho. Quem tem filho então… Tem dias em que chego, mal tô dormindo, minha mulher acorda e fala: “Toma, tá contigo.” Tenho que entrar no ritmo da família.

BARONE – Praticamente todo fim de semana tem dois ou três shows.

Por outro lado, vocês são a alegria do Ricardão.

HERBERT – É, fizemos até uma versão em homenagem ao Ricardão (LEIA A LETRA NO FINAL DA ENTREVISTA). Mas nossas grandes musas inspiradoras são o Savalla e o João Fera (CANTA A HOMENAGEM AO JOÃO FERA). A gente canta muito essas músicas no ônibus da turnê. Imagina, todo mundo cantando junto, gritando, o ônibus vem abaixo!

E qual foi o lugar mais do caralho pra fazer show?

BARONE – Festival de Montreux, onde tocou três vezes.

HERBERT – E na Argentina. Eles cantam todas as nossas músicas!

BARONE – Lá a gente é considerado local total. As pessoas me reconhecem na rua: “Maestro! Maestro!”

Maestro?! Que tu tá fazendo aqui, cara? Vai pra lá que tu é o Tom Jobim! Quem é mais conhecido na Argentina: vocês ou a Xuxa?

HERBERT – A Xuxa é grande pra caralho. A Daniela Mercury é grande lá, e sem cantar nada em espanhol. Nego veio aqui no verão, adorou e transplantou pra lá: a filha do Menem vai ver, Maradona é louca por ela… A música só cruza fronteira quando tem raízes nacionais. O Barão é uma puta banda, mas têm as referências dos Rolling Stones, e no Equador, na Bolívia, cada lugar tem seus Stones locais. Os Titãs nos últimos discos são uma banda como outras estrangeiras.

E os caras que tão pintando agora?

HERBERT – Carlinhos Brown vai ser a maior estrela internacional do Brasil. O Brown é foda! É uma usina total. A sofisticação das letras dele é um absurdo! Nunca tive a impressão tão clara de estar diante de um gênio como diante do Brown.

Mas você sempre gostou dessas coisas de baiano, né? A gente tava lá num carnaval que Gilberto Gil saiu no Olodum, e ele gritava: “É a melhor bateria do Brasil! Não sou eu quem digo, é Herbert Vianna!” Caralho, você tá dizendo pra cacete! Quero ver você dizer isso em Padre Miguel.

HERBERT – Caetano tem uma frase: “A capacidade da Bahia de produzir coisas geniais só é igualada pela capacidade da própria Bahia de produzir imitações medíocres dessas coisas geniais.”

E é fácil baiano ser intelectual. Por exemplo, numa discussão sobre física quântica, ele diz: “Ah, isso tudo é muito relativo, porque na Bahia…” Na Bahia tudo é diferente.

HERBERT – Antes da Daniela Mercury ser conhecida eu tinha dado música pra ela gravar. Ela queria eu produzisse O Canto da Cidade e não pude. Então ela procurou a Liminha, que não atendia ela, nem sabia quem era. Liguei e falei: “Liminha, você vai ganhar muito dinheiro com essa menina!”

E o Skank, que chamam de sub-Paralamas?

HERBERT – Qualquer banda de reggae alegrinho vai ser identificada com o Paralamas, mas a gente já deu alguns passos fora desse estilo de ficar pulando, satisfeitos, de bermuda. E o Samuel do Skank é muito bom. Ao vivo são bons pra caralho.

Vocês sempre tiveram esse problema de não se encaixar em rótulos. No início, vocês foram rejeitados pela galera do rock & roll…

HERBERT – Pô, era a gente, o Kid Abelha e o resto. Todo mundo com cara de mau, cabelão, Di Casto, aquela galera, e a gente parecendo o bom aluno. Eles todos já se conheciam, eram uma espécie de clube, enquanto a gente era universitário, vinha de outra coisa…

BI – Mas ficamos ombro a ombro com eles, tocando no Circo Voador…

Se comia gente pra burro ali no Circo Voador, né?

HERBERT – (CARA DE ESPANTADO) Se comia? Então pra mim escapou…

BI – Ele usava óculos.

E aquelas porradas que rolavam no cenário do Rock-Brasil? Lobão que ladra não morde?

BARONE – Cara, nunca mais ouvi falar do Lobão… não, outro dia ouvi ele falando do Lulu Santos. E falando bem!

HERBERT – Isso começou em julho de 83, depois que a gente lançou o compacto de Vital e sua Moto, quando a gente foi pra Canela.

Mas vocês foram logo pra canela? Já pegaram pesado!

HERBERT – Enquanto isso saiu o disco com Cinema Mudo. Lobão então saiu falando que tinha mostrado pra gente uma música do Guto chamada Rastaman in the Army e que a gente tinha plagiado isso pro Cinema Mudo. Acontece que Cinema Mudo, mesmo saindo depois, foi gravada junto com Vital, ou seja, antes dele mostrar qualquer música. Quando o Lobão também foi pra Canela, todo mundo achou que ia ficar o maior clima, mas nada, ele tocou bateria pra gente… Lobão é assim: despiroca de um momento pro outro. Uma vez, no Circo Voador, mostrou Me Chama pra gente, e ainda falou: “Essa aqui é a parte paralameada da música.” (CANTA): “Nem sempre se vê…” e entra uma batida mais reggae. De repente tava dizendo que Cinema Mudo era porque o disco dele se chamava Cena de Cinema.

Ficou falando em Chico Boboca de Holanda.

HERBERT – E aí ele vem com um papo de “só falo mal de quem eu gosto”, “não chuto cachorro morto”… Depois vieram outras porradas, quando a gente lançou Alagados e saíram matérias onde a gente dizia que o futuro da música era negro. Pô, nunca dissemos isso! Mas todo mundo falou mal da gente – os Titãs, o Barão; acho que se sentiram ameaçados, porque o disco vendeu 800.000 cópias, algo que ninguém do rock brasileiro – tirando RPM – tinha feito. A gente sempre foi um bom alvo. Cazuza, muito no começo, falava mal da gente, depois ficamos superamigos.

BARONE – O problema é que a gente nunca foi muito dessa turma do rock. A gente sempre teve essa vontade de ouvir música sem preconceito. A gente gosta de bolero, de tango, de salsa – pra caralho –, crescemos ouvindo rock & roll, e isso tudo fica meio numa feijoada.

HERBERT – A gente é considerado rock & roll pela atitude, pelos shows ao vivo, pelo peso da coisa, e isso coloca a gente numa raia interessante no rock latino, junto com três outras bandas: uma mexicana chamada Café Tacuba, um punk folclórico considerado o melhor disco latino do ano passado.

BARONE – Punk folclórico vem de Atahualpa y los Panquis.

HERBERT – As outras duas são argentinas: Los Fabulosos Cadillacs, cujo El Matador foi o maior hit latino do ano. A outra banda é Los Pericos, com um reggae tradicional. Esses quatro bandas, incluindo a gente, estão no top do rock na América Latina.

A ideia de vocês é se cristalizarem como ídolos dos cucarachas ou vão fazer como naquele jogo, o War, e conquistar territórios até chegar nos EUA e na Europa?

HERBERT – A gente fez uma excursão americana no final do ano passado que foi muito boa: três dos quatro shows tavam sold out (LOTAÇÃO ESGOTADA COM ANTECEDÊNCIA).

Quem é que faz sucesso de verdade com os americanos? Aqueles que não enchem os shows só com os brasileiros?

BI – Milton Nascimento, Djavan e Ivan Lins.

BARONE – Mas é um pessoal do circuito de quem lê Downbeat.

Vocês não fizeram a jogada comercial errada, traduzindo suas letras pro espanhol, em vez de ir direto pro inglês? O Sepultura, por exemplo, funcionou lá fora porque canta em inglês. Já o espanhol, mesmo a gente tem preconceito. A Mano Negra (BANDA DE ROCK ESPANHOLA) é legal, mas tem umas horas em que o cara começa me gusta, me gusta que você já começa a achar…

HERBERT – O Brasil é tão dominado culturalmente pelos Estados Unidos que no momento em que eles precisaram conter a revolução cubana saíram implantando esse preconceito na gente. Música chinesa? É estranha Mas tá ali. Música indiana? Tá ali. Música latina? Não, tá abaixo, é brega, de mau gosto. Mas antes não era, perguntem pros seus pais, que ouviam boleros e dançavam tangos.

Vocês fizeram as pazes com o Cazuza, esqueceram o Lobão, tocam juntos com o Barão, mas quem é o pentelho do rock, aquele que não dá pra engolir?

HERBERT – Olha, não falo mal de ninguém, mas Marcelo Nova é um imbecil de última categoria.

BARONE – Até hoje tá segurando no cadáver do Raul Seixas.

HERBERT – Acho bonito o que ele fez pelo Raul, foi idealista, mas é extremamente mal-educado. Detesto gente mal-educada, gente que vive atacando os outros. Eu sei que cada pessoa que tá num palco tá fazendo um puta esforço, tá trabalhando e merece respeito como profissional, sacou? Ponta final. Tenho admiração pelo Lobão, mas Marcelo Nova não consigo…

Por que todo mundo gosta de falar mal de vocês? É alguma maldição? Essas críticas negativas te arrasam?

HERBERT – Não, nem as críticas do Giron (LUÍS ANTÔNIO GIRON, JORNALISTA DA FOLHA DE S. PAULO).

Já faz três anos que o Giron decretou o fim do humor do C&P. Falou este ano que Rita Lee tava na menopausa artística e ela arrebentou nos shows dos Rolling Stones.

HERBERT – Ele já decretou a nossa morte também. Me lembro que a primeira vez em que o Programa Legal foi ao ar ele disse que aquilo não ia agradar. É um especialista em errar previsões.

Por falar em Stones, quais foram os shows marcantes da sua vida?

HERBERT – Olha, quando vi Tina Turner na turnê Private Dancer eu pirei. Depois vi o Aswad em Londres, um show celebrando o fato de serem a primeira banda de reggae a chegar no primeiro lugar da parada pop inglesa. Foi tão devastador que tivemos vontade de passar um ano ensaiando antes de subir num palco outra vez.

Você é Keith Richards ou Mick Jagger?

HERBERT – Cara, gosto pra caralho do Keith Richards, mas acho sensacional um cara como Jagger, que é um puta executivo, sabe o nome das trezentas pessoas que trabalham no projeto, pra onde cada centavo vai, isso é bacana. Os Stones têm um network internacional comparável ao do FBI. Achegada deles num aeroporto é uma operação complicada. Inclusive porque o Keith nunca pode ser revistado. Às vezes eles chegam num avião e ele é até revistado para que do outro lado possa chegar outro avião que vem com a heroína.

É o avião do avião. E na verdade existem seis Keith Richards. Pegaram uns sujeitos aí e amassaram a cara deles. Aí cada um entra por um lado do aeroporto. Você é que nem o Mick Jagger que fica malhando antes de entrar no palco?

HERBERT – Ando de bicicleta todo dia, faço abdominal, quando acho que tô pesando mais faço uma dieta, mas pra mim o maior exercício é próprio show. Se mexer no palco não é tanto o problema, mas cantar é foda. O ar vai embora. A vantagem é que minha voz é uma merda mesmo e não faz diferença. Posso estar rouco que não faz diferença.

Você acha voz uma merda porque ainda não ouviu a gente… E o Nirvana?

BI – Adoro o Unplugged deles.

HERBERT – Na época eu não conhecia, mas agora gosto pra caralho.

A gente também. Depois que o Kurt morreu ele tá compondo demais!

HERBERT – Não, já me chamou a atenção quando eles tocaram no Brasil. Muito bom! Quando eu ia esquiar só ouvia Nirvana, tinha tudo a ver enquanto eu tava me cagando ali.

Naquele show do Brasil ele e a maluca daquela mulher dele viraram duas garrafas de vodca direto antes de entrar no palco. Tavam doidavaços!

BARONE – Cara, fiquei impressionado quando vi Raul Seixas pessoalmente. Ele tomava rabo-de-galo – vodca com groselha – no café da manhã!

Pô, Raul Seixas bebia benzina! Tem gente que cheira. Mas ele bebia benzina.

HERBERT – O mais esquisito que a gente já passou foi quando o nosso campeão aqui (BI) foi nocauteado na Inglaterra pelos poppers, vulgo TNT, que eles vendem em sex shops. Você cheira e dá uma dor de cabeça instantânea. Depois você ri pra caralho. Parece lança. O Bi ficou: “Ah, isso não é nada”, comprou, cheirou numa praça lá de Londres e caiu duro! O guarda veio ver o que tava acontecendo com ele.

Como era essa vida em Londres? Vocês todos morando no mesmo apartamento, um lavando, outro cozinhando de avental com a bunda de fora…

BI – Ah, era aquele clima… um lavando a bunda do outro…

HERBERT – A partir de um certo momento a gente passou a guardar as garrafas que a gente bebia e chegou num ponto em que não dava pra entrar mais na cozinha. A gente bebeu pra caralho!

Mas pra que passar três meses enfurnados em Londres? Era aquilo que a crítica cansou de repetir: “Eles tiveram que ir a Londres pra gravar o seu disco mais brasileiro?”

HERBERT – Fomos porque era legal ir pra Londres de graça. Nosso produtor, Phil Manzanera, ex-guitarrista do Roxy Music, era de lá. A gente fez quinze shows pela Europa abrindo pro Brian May, do Queen, e o empresário do Manzanera ouviu a gente. Fui na festa de lançamento do disco da Nina Hagen, produzido por ele, fomos apresentados, ele se ofereceu pra produzir duas músicas do novo disco. Ele tava saindo de férias – com Jack Bruce, Mick Taylor e Simon Philips – e levou fitas nossas pra ouvir. Quando voltou, disse que tinha adorado e quis produzir o disco inteiro.

E essa história de ir pra Europa abrir pro Brian May? Ele botou dentro? Ou o negócio dele era o Fred Mercury?

BI – Quando o Queen veio ao Rock in Rio, em 85, ele conheceu a gente, que era da mesma gravadora. Depois, fomos num festival de rock em Montevidéu e tocamos no mesmo dia que ele.

BARONE – A gente voltou juntos no avião e demos um CD pra ele. Ele ouviu e chamou a gente. Pô, o cara é um ícone, tá entre os cinco maiores guitarristas em termos de sonoridade.

Mas o público de vocês é totalmente diferente!

HERBERT – Ele mesmo tinha problema de público, porque todo mundo ia pra ouvir o Queen e as coisas dele são bem diferentes.

BI – Na verdade, o show dele é tão chato que só vi uma vez inteiro. E fizemos quinze shows juntos!

HERBERT – E foi foda, fizemos shows na pqp da Inglaterra, onde nosso nome não tava no cartaz, onde nego não entendia português, não queria saber de nada que não fosse Queen, e a gente tinha dez minutos pra passar o som. A plateia tava lá: “QUEEEN! QUEEEN!” Apagava a luz, todo mundo: “Uaaah!” Acendia a luz, tava lá a gente no palco… Surpresa! Com quarenta e cinco minutos pra provar que o cara tava certo de ter trazido a gente do Brasil pra tocar ali.

E ele tava certo?

HERBERT – Tava, foi incrível! Até hoje a gente recebe cartas de fãs. Tem uma menina de Sheffield que escreve direto. Uma só. Mas tem!

Bi, qual era o lance daquela barba? Foi promessa mesmo? E quem foi o misericordioso que finalmente cortou fora aquela porra?

BARONE – Ele só tirou quando um amigo nosso convenceu ele de que podia fumar a barba.

HERBERT – Aquela barba tinha de tudo! A gente tomando café da manhã num restaurante superelegante e o Bi naquela fase Severino, camisa abotoada até em cima, manga comprida, igual um cortador de cana. Então a gente conversando ali e ele: “Opa! Peraí.” Pá! Puxou um carrapato-estrela deste tamanho! O carrapato tava tão gordo que não andava, a barriga era maior do que as patas…

Vocês dois tocaram no disco solo do Herbert?

BI e BARONE – Não, ele tocou sozinho, fez todos os instrumentos.

Por quê, Herbert? Você não tinha grana pra contratar ninguém?

HERBERT – Esse disco foi um grande demo. Comecei a passar pra fita, em oito canais, as músicas que eu tava compondo, e foi ficando legal… Todo disco de banda é uma negociação entre todo mundo, é um mínimo múltiplo comum, e tive a curiosidade de saber como seria um disco sem meio-termo.

BI – Já eu nunca pensei em fazer disco solo. Só componho eventualmente…

BARONE – A gente contribui com o que consegue. O Herbert escreve pra caralho, tem mais capacidade pra compor, enquanto a gente dá mais palpites em arranjos.

HERBERT – Eu sou mais disciplinado em relação ao meu ofício. Saio de casa todo dia e sento e trabalho. Desde meu primeiro gravador de quatro canais, tenho muito amor por essas maquinetas.

Vocês se conheceram em Brasília, né? Ainda voltam lá, gostam daquela cidade?

HERBERT – Adoro Brasília. Toda vez que vou lá fico emocionado.

Eu também. Toda vez que vou a Brasília fico emocionado quando tô de volta ao Rio. Aquilo é meio stalinista…

HERBERT – Quem nasceu no Rio nunca vai entender Brasília. Nasci em João Pessoa e fui pra Brasília com dois anos e meio. Cresci lá, a minha visão da cidade é diferente.

Aí tudo bem, é como morar num playground, mas pra adulto é foda.

BI – Eu adoro Brasília, mas não voltaria a morar lá.

Qual a cidade de maior tédio do Brasil?

HERBERT – Uma cidade que nunca entendi a vibração é Recife.

BI – Fortaleza é legal. Natal é legal.

HERBERT – Porto Alegre tem uma onda superlegal.

BARONE – A gente custou a gostar de Belo Horizonte, mas é legal. É o povo que mais bebe no Brasil!

BARONE – Mas o lugar mais esquisito é São Paulo.

HERBERT – A melhor definição foi a frase que o Bussunda bolou pro Viva Rio: “Podia ser pior. Podia ser São Paulo.” Tem aquela outra também: “ Pior do que um dia de chuva em São Paulo, só um dia de sol em São Paulo.” Eu gosto de São Paulo, mas deu uma piorada… No começo, era o máximo pra gente ir fazer show em São Paulo.

Mas chega de falar mal de outras cidades. Pra terminar: o disco novo, esse gravado ao vivo. Vai entrar o Rumo ao Planeta Ovo, aquela homenagem à sua careca?

HERBERT – Não, sabe o que foi isso? A primeira vez que fomos pra Argentina, a gente se esbaldou de carne, e teve um dia em que eu soltei um peido no hotel. A janela não abria – pra nego não se suicidar no hotel –, e o Maurício Valadares se pendurou na cortina, gritando: “Puta que o pariu! Eu tô no Planeta Ovo!”

Puxa, que decepção… pensei que fosse um hino dos carecas: (COM VOZ FILOSÓFICA) “Todos nós estamos inexoravelmente indo ao Planeta Ovo”… Já tinha me identificado com a força da mensagem! (PUXANDO HERBERT PRUM CANTO) Porque nós, carecas, precisamos nos unir, sabe…

MÚSICAS DE ZOAÇÃO DO PARALAMAS EM EXCURSÃO:

HOMENAGEM AO RICARDÃO (ao som de Rei Nagô, aquela do Pega no Ganzê)

Tem visita na tua casa                                                                                                 Ricardão no teu lugar                                                                                               Esquentar não adianta                                                                                                           É melhor tu relaxar                                                                                                             Essa noite ninguém dorme                                                                                                 Hoje o bicho vai pegar                                                                                                           Que beleza, tô no clima para quem quiser me dar

Olelê, olalá                                                                                                                           Hoje eu vou foder                                                                                                                 Hoje eu vou trepar

SAMBA PRO JOÃO FERA (ao som do jingle da Varig)

Estrela africana de pele azul                                                                                                 João Fera me deu o cu                                                                                                         De quatro, sentado, em pé                                                                                                   Nasceu o neném – chamou Pelé                                                                                           Papai Noel tá com o presente já na mão                                                                               Para enterrar no cu do negão                                                                                                 E um ânus novo pra ter mais satisfação                                                                                 Vara nele! Vara nele! Vara nele!                                                                                           (Cuzeiro! Cuzeiro!)

UM BARRO EM ITAPUÃ (ao som de Tarde em Itapuã)

O velho calção eu baixo                                                                                                     Tô com vontade de cagar                                                                                                     Pego o jornal de anteontem                                                                                                   Que é pro meu cu se informar                                                                                               E sinto a bosta saindo                                                                                                           Aquela coisa profunda                                                                                                           A merda bate na água                                                                                                           A água bate na bunda, é bom                                                                                               Largar um barro em Itapuã                                                                                                   Rabo de barro em Itapuã, oi                                                                                                 Cu que arde em Itapuã                                                                                                         Lá vai cocô em Itapuã…

É PRECISO ARMAR (ao som de Pais e Filhos. Cantar com voz de Renato Russo)

É preciso armar aaah numa boa                                                                                           pra ver quem vou comer amanhã                                                                                         Se você parar aaah pra pensar                                                                                             você pode broxaaar

Tô com a tenda armadaa                                                                                                     Engomei a meiaa                                                                                                                 Você diz que meu pau não te enteeende                                                                               Mas você não entende o meu pau                                                                                         Você culpa meu pau por tudo                                                                                               Diz que ele é cabeludo                                                                                                         Ele é criança, é quase um bebê                                                                                             Porém você vai ver quando o bebê crescer

Olha agora, uuuuh                                                                                                                 Só tá o saco de fora!

BONUS TRACK – FAIXA-BRINDE COM OS OUTTAKES DA ENTREVISTA

(Geralmente nas entrevistas do C&P, depois que acaba o papo, o pessoal ainda fica por ali jogando conversa fora. Desta vez catamos a conversa furada no fundo da lata de lixo e reproduzimos aqui, na íntegra.)

HERBERT – Pô, mas fizemos essa entrevista toda sem pronunciar a palavra buceta…

Você, que é um especialista no assunto, pode emitir a sua opinião.

HERBERT – Sabe qual a definição da mulher? É aquela parte da buceta que você não usa.

A gente nem botou esse assunto na pauta porque vocês não fazem muito o gênero de roqueiros putanheiros.

HERBERT – Ninguém aqui comeu a Monique Evans!

E como é a amante argentina?

HERBERT – Na Argentina, se quer pedir uma menina pra fazer uma chupeta, é “saca-me la goma”. Tirar a borracha, né. Tem também “entregar el marrom”.

BARONE – Por falar em cu, a gente não falou em carros nem em culinária, assuntos que gostamos muito de comentar.

HERBERT – Pois é, me disseram que você tava era sentado numa D20. Aliás, D20 centímetros.

Que isso gente, eu tenho é um Tipo zero roxo (“te puseram um roxo”)

BI – Pô, troca de carro. Se você quiser, eu tenho um Parati vermelho (“para ti vermelho”)

HERBERT – Mas quando você ganhou no consórcio, levou Uno zerinho, né? (“levou um noz zerinho”)

Você viu aquele programa Gente que faz? Quer ver o que faz gente? E de manhã, você vê o Colosso? Quer ver agora? Você viu o Fantástico domingo? Quer ver o fantástico aqui embaixo agora? Já viu o Pequenas Empresas? Quer ver o Grande Negócio? Gosta de cinema? Prefere curta ou longa? (OS ENTREVISTADOS GRITAM “CHEGA! CHEGA!”)

HERBERT – (QUANDO A SITUAÇÃO ACALMA) A menina morava na favela, mas arrumou um emprego de arrumadeira numa casa superbacana. Um dia tava limpando lá o corredor e espiou pra dentro do quarto da patroa: tava a patroa lá fazendo um sessenta-e-nove com o amante dela. Ela correu e cutucou a cozinheira: “Que merda é essa que eles tão fazendo lá dentro?” “Você nunca fez isso? Pois isso é o sessenta-e-nove! Pô, tem que experimentar isso, é sensacional!” Ela voltou pra casa com aquilo na cabeça. Aí chegou o negão, vindo da obra, com a marmita debaixo do braço. “Tião, tenho uma novidade, a gente tem que experimentar! Vem cá.” Tiraram a roupa e partiram logo pro sessenta-e-nove. No meio da coisa o Tião ouve aquela voz: “Tião, você sabia que Mao Tsé-tung morreu?” Ele para: “Que porra é?’’ A mulher responde: “Eu tô lendo num pedaço de jornal que tá agarrado aqui na tua bunda.”

Sessenta-e-nove é que nem morar na Vieira Souto, fundos: a localização é boa mas a vista é péssima. Bom gente, chega né, vamo nessa que vocês estão com a vida ganha…

BARONE – Vocês não tão a fim de jantar aí não? Tem lombo recheado com salsichão e fios-de-ovos.

BI – Tá vindo o maior broto a fim de você. Quer que eu bote na sua? BARONE – Jacaré no seco anda? Pau na bunda sua?

HERBERT – O calor que tá lá fora, sente-se aqui.

(PEDINDO TRÉGUA) A gente é pára-raio desse tipo de coisa. Outro dia veio um cara: “Aí, meu irmão, conhece o Mirosbra?” Não resisti: “Que Mirosbra?” “Aquele que te carcou atrás do box blindex da Cesosbra!”

HERBERT – O Barone te entregou um cartão pra você me dar?

A pergunta que mais fazem pra gente é “Já comeu alguém?” Saindo de Belo Horizonte, sete horas da manhã, o avião sacudindo, eu ali com pavor… sentado do meu lado um maurício de terninho, mala executiva… ele vira (COM VOZ GROSSA): “E aí, Casseta, já comeu alguém?” “Não, mas já enfiei o dedo no cu de um curioso.”

HERBERT – Na Argentina é que tem as melhores bundas do mundo! A bunda brasileira não se compara! Elas são tão obcecadas com a bunda que a Argentina tem um alto índice de Iordose, de tanto elas carcarem a calça até o talo. E se você não jogar uma piadinha elas ficam ofendidas!

Já foram a Cuba? Diz que lá é onde as mulheres são mais cuzeiras. E dá pra comer o cu de uma família inteira com um sabonete! Por isso tem aquela ciência: vinho, branco e tinto; agora cu, só rosê. E dito isso, só nos resta levantar e ir embora. (TODO MUNDO LEVANTA OUTRA VEZ)

BARONE – Não, vem cá, senta aqui mais um pouquinho… Vocês chegaram há pouco de fora… (“chegaram a pôr o cu de fora”)

(E COMEÇA TUDO DE NOVO)

Sobre o Autor

mlsmarcio

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