Musicoterapia

Triste Brasil, oh, quão dessemelhante

Postado por Simão Pessoa

Por GG Albuquerque

Na noite do dia 26 de dezembro de 1968, Caetano Veloso recebeu Gilberto Gil e outros amigos em seu apartamento para conversar, ouvir alguns discos e tocar músicas ao violão. Costumava fazer isso com frequência, mas aquela ocasião foi diferente. Foi a última noite antes de uma das maiores reviravoltas de sua vida. No dia seguinte, o músico, então com 25 anos, foi preso pela Polícia Federal a mando do Exército – que recentemente decretara o AI-5. “Quem é preso, é preso para sempre”, disse-lhe o designer gráfico Rogério Duarte.

Mais de cinco décadas depois, a frase do amigo ainda ressoa na cabeça de Caetano. O trauma da prisão, da tortura e do exílio permanecem incrustados na memória do baiano, que narra todo o caso em vívidos detalhes no documentário “Narciso em Férias”. Em certo ponto do filme dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o músico recorda as canções que tocou naquela noite antes da prisão, entre elas, “Onde o Céu Azul é Mais Azul”, que acabou por tomar um tom profético, como prenúncio de um dos períodos mais sombrios da sua vida. Desde então, Caetano jamais esquece aqueles versos:

Eu já encontrei, um dia alguém

Que me perguntou assim,

Iaiá

O seu Brasil, o que é que tem?

O seu Brasil, onde é que está?

A pergunta feita por Braguinha acabou atravessando a vida e obra de Caetano. Mas, enquanto o compositor carioca a respondia com êxtase convicto e amor irredutível (exaltando “o meu Brasil grande, e tão feliz”, “onde o céu azul é mais azul”), o baiano se via enroscado em sentimentos conflitantes e ambíguos, balançado entre um encantamento diante do esplendor da energia criativa e vital do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, espantado pelo terror da violência autoritária que formou esta nação e ainda a assombra. Sua paixão pelo Brasil é ferida que não cicatriza por completo. O Brasil é seu abismo. Uma vez, na Bahia, Caetano pegou uma carona no carro de seu concunhado. Ao sair do veículo, percebeu no vidro traseiro um adesivo com os dizeres “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

“Cheguei a sentir uma dor física no coração”, lembrou no livro “Verdade Tropical”. “Era o slogan triunfante da ditadura. Suponho que copiado de uma campanha americana, o conselho se dirigia aos opositores do regime, confundindo de uma vez por todas este com o país. Eu, que amava o Brasil a ponto de quase não ser capaz de viver longe dele, e que me via obrigado a isso pelo regime que ditara aquele slogan, considerei a amarga ironia de ter circulado pelas ruas de Salvador num carro que grosseiramente o exibia aos passantes. (…) Foi uma horrível tristeza constatar que meus problemas de amor com o Brasil eram mais profundamente complicados do que eu era capaz de admitir”.

“Londres representou para mim um período de fraqueza total”, confessou Caetano em suas memórias. Gravado em seu primeiro ano na capital inglesa, o álbum “Caetano Veloso” (1969) é envolto por uma densa depressão, feito quando o cantor pensava que jamais retornaria ao seu país. Músicas como “A Little More Blue” (“One morning they came to take me to jail / I smiled at them and said ‘alright’/ But alone that same night I cried and cried again”) (“Uma manhã eles vieram me levar para a cadeia / eu sorri para eles e disse ‘tudo bem’ / Mas sozinho naquela mesma noite eu chorei e chorei e chorei”) e sua versão de “Assum Preto” explicitaram a pesada sombra que rondava a sua mente.

Por sua vez, “Transa” (1972) foi realizado após uma estadia de um mês no Brasil para o aniversário de 40 anos de casamento de seus pais – foi Maria Bethânia que conseguiu das autoridades militares uma autorização especial para que o irmão entrasse no país. Ainda que marcada por longos interrogatórios, aquela visita reacendeu o ânimo de Caetano ao diluir a perspectiva de um exílio sem retorno. Embora muitos de seus amigos estivessem entrando e saindo de manicômios e prisões, ver coisas, pessoas e lugares o animaram. Assistiu ao sucesso do show Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia; sentiu mais uma vez o clima tropicalista na apresentação de Jards Macalé no Festival Internacional da Canção cantando “Gotham City”, sendo vaiado como esperado. “Em suma, o Brasil, apesar de tudo, parecia exibir recursos de recuperação. Toda a minha ‘torcida’ passou a ser nesse sentido. Isso me animava”, escreveu em seu livro.

Transa, porém, está longe de ser um disco de canções “alegres e afirmativas”, como descreveu o crítico Nelson Motta. O disco é, com efeito, um álbum que traduz os “profundamente complicados problemas de amor” do seu autor com o Brasil e elabora – ou melhor, expurga – a confusão psicológica do seu duplo desencaixe enquanto estrangeiro que não mais se reconhece na terra que fora sua casa e, simultaneamente, não encontra o pertencimento no novo país que o abriga (neste ponto, é interessante observar que Caetano não incorporou a eletricidade do rock inglês de The Who, Beatles ou Rolling Stones, mas conectou-se logo ao reggae dos imigrantes negros jamaicanos, que emerge em “Nine Out of Tem”, sendo a primeira vez que uma canção brasileira citava a música da ilha caribenha).

“You Don’t Know Me” abre o álbum denotando esse senso decididamente incerto e hesitante de nacionalismo na própria forma com que Caetano enuncia a sua letra. Inicialmente, surge com voz serena, mas assertiva e resoluta, declarando: “There’s nothing you can show me from behind the wall”, como se estivesse se fechando em si mesmo, num mundo particular no qual o Brasil – e o luto do e pelo país – fosse seu único horizonte. Mas logo a negação e a recusa se transformam em um discreto pedido de socorro e, adiante, quase uma exigência, como um sufoco clamando por novos ares: “Show me from behind the wall! Why don’t you show me from behind the wall? C’mon and show me from behind the wall” (“Mostre-me por trás da parede! Por que você não me mostra por trás da parede? Venha e me mostre por trás da parede!”). A música, então, cresce em uma espiral catártica, com Caetano abandonando a língua inglesa e cuspindo versos e mais versos, com força e veemência, de músicas de Carlos Lyra, Edu Lobo, Gal Costa e Luiz Gonzaga.

Diferente da proposição estética do tropicalismo, não há aqui uma operação de síntese ou sincretismo entre elementos contrastantes. Há o conflito, o caos, um transtorno sem direções. Os idiomas se chocam, as canções brasileiras muitas vezes surgem quase em espasmos involuntários, como uma pulsão incontrolável, um centro gravitacional que o puxa de volta ao centro do buraco do qual ele tenta escapar, mas não consegue – tal qual os personagens do filme “Anjo Exterminador”, de Buñel, que, misteriosamente, não conseguem deixar a sala de estar.

O disco é repleto de citações que vão de Monsueto a Paulo Vanzolini, de Mestre Pastinha e cantos de capoeira a Gregório de Matos, passando por Dorival Caymmi. Caetano busca refúgio em uma memória afetiva de um Brasil idílico no seu arquivo pessoal e sentimental de canções. Mas confronta-se com as torturas, as prisões e a violência da ditadura e não vê o mesmo país que amara. Triste Brasil, oh, quão dessemelhante. É preciso inventar um país. Refazer o Brasil por dentro.

A música popular, em especial a música afro-brasileira, é para Caetano um elemento primordial na formação de uma identidade e do (auto)entendimento sobre o ser e o afirmar-se brasileiro. Mais que isso: João girando na viola sem parar, os blues do Djavan, Tins e Bens e tais, e todo espectro que vem de Pixinguinha a Jorge Ben são pilares para confecção coletiva de uma outra sociedade por vir, livre das correntes da colonialidade após realizar a sua segunda abolição.

“A língua é minha pátria / E eu não tenho pátria, tenho mátria”, cantou ele em “Língua” (1984), apontando então as diretrizes e as utopias que nutrem as esperanças de um outro molde civilizatório, desvencilhado da pátria masculina enraizada no sangue da colonização e da escravidão para, ao contrário, formar-se sob a perspectiva do feminino. É sintomático que a música tenha sido gravada com participação de Elza Soares, ela própria uma matriarca inventora da música brasileira que décadas depois afirmaria com todo seu vigor: Deus é mulher – e preta. “Língua” arremata:

E deixe os Portugais morrerem à míngua

Minha pátria é minha língua

Fala Mangueira! Fala!

Um Prêmio Camões não pode dimensionar a vida que se inventa em Mangueira, onde todos choram quando morre um poeta. Onde Nelson Cavaquinho vive contente sabendo que alguém há de chorar quando ele morrer.

No dia 28 de outubro de 2018, 50 anos depois do decreto do AI-5 e da prisão de Caetano Veloso, Jair Bolsonaro vencia a eleição e se tornava o novo presidente do Brasil. Nos seus primeiros dias como chefe do Executivo, ele estabeleceu um novo slogan para o governo federal. Depois do “Brasil, um país de todos” (nos anos petistas) e “Ordem e progresso” (dos anos Temer), estampa-se: “Pátria amada Brasil”. Não apenas uma reafirmação aos valores do século 19, presentes no Hino Nacional e de todo o sangue que o constituiu, mas um simbólico extermínio da mátria que Caetano e Elza vislumbraram em “Língua”.

Pouco antes de assumir o Palácio do Planalto, Bolsonaro exibiu com orgulho um presente que recebeu de um artista plástico: uma escultura do mapa do Brasil feita de cápsulas de bala (fornecidas pelas Forças Armadas) estampando seu rosto. Um retrato cru e chocante do retorno do governo militar, da celebração da violência, da banalização da vida e da instituição de um projeto de morte.

No campo cultural propriamente, os artistas passaram a ser vilipendiados ao mesmo tempo em que as suas produções passaram a ser pervertidas e instrumentalizadas pelo neofascismo à brasileira. “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores”, hino contra a ditadura composto por Geraldo Vandré, virou trilha para incitar o golpe militar em manifestações de Bolsonaristas contra o lockdown e a favor da cloroquina: “Nos quartéis, generais planejam a ação / Mas não têm o apoio da população”.

O funk “Baile de Favela”, icônica exaltação do MC João às periferias e canto de orgulho dos moradores comunidades (exatamente a população que mais foi empurrada para a morte durante a pandemia de Covid), virou propaganda de um “Brasil pra frente” em que Paulo Freire é mandado para a estratosfera e “vamo distribuir livro do Olavo pra galera”.

O então secretário de Cultura, Roberto Alvim, fechou o pacote com requintes de morbidez ao copiar trechos de um discurso do ministro da Propaganda da Alemanha Nazista em pronunciamento. O mesmo Roberto Alvim que pouco antes havia convocado “os artistas conservadores” a criarem uma “máquina de guerra cultural”.

Esta é mesmo a terra onde o céu é mais azul? Este ainda é o mesmo Brasil de Caymmi, Pastinha, Monsueto, Gal, Bethânia, Tins e Bens e tais? Ainda é o país de João Gilberto – que, por sinal, morreu sem luto oficial ou qualquer homenagem do governo, que, por sua vez, lamentou de imediato a morte do MC Reaça, autor da tal paródia bolsonarista de Baile de Favela?

Se a ditadura militar obrigou Caetano a odiar o Brasil, a escalada do neofascismo bolsonarista sequestrou nossa bandeira e o país. Roubou-nos os orgulhos e as paixões; silenciou, vilipendiou e demonizou a magia da arte deste povo, transformando-nos em estrangeiros em nossa própria terra. Se Caetano sofria uma tristeza aguda em Londres com a possibilidade de não mais voltar ao Brasil, mudar-se para a Europa ou Estados Unidos (e nunca mais voltar) passou a ser um sonho até mesmo de adolescentes. De onde extrair forças para encontrar saídas para mudar esse quadro? Ou, pelo menos, onde encontrar os “recursos de recuperação”, como descreveu Caetano?

Em “Sem Samba Não Dá”, canção de seu novo álbum, “Meu Coco”, o baiano observa que está “tudo esquisito, tudo muito errado. Mas a gente chega lá”. E “tem muito atrito, treta, tem muamba”, mas tem também novas forças criativas que modificam o Brasil, como se atualizando os símbolos citados nas faixas de Transa:

Tem sambanejo ou pagobrejo

Tem Ferrugem, Glória Groove, Maiara e Maraísa

Yoùn, Yoùn,

Tem Djonga com Rogério,

MC Cabelinho, tem Baco Exu do Blues

Tem gente pra xuxu

Tem Duda Beat, Gabriel do Borel, Hiran e Majur,

Tz da Coronel,

Tem Simone e Simaria sambando,

Tem Leo Santana e a Mendonça

No Pelourinho com a Didá

Depois de enumerar todos esses artistas populares, ele acrescenta, taxativo: “Mas sem samba não dá”.

O samba que mora na filosofia caetânica não se trata do gênero musical nem mesmo dos ambientes das escolas de samba e da vida dos sambistas. O samba é a epítome daquilo que podemos realizar como povo, nosso maior feito, o grande poder transformador que faz os filhos da dor se tornarem os pais do prazer.

Em “Desde Que o Samba é Samba” (1993), ele anuncia: “O samba ainda vai nascer / O samba ainda não chegou”. O samba, portanto, é uma promessa ainda não realizada, como a segunda abolição. Um sonho irrealizado – e talvez irrealizável em sua totalidade, uma vez que é alavancado pelos nossos desejos máximos de irrestrita felicidade – que pousa permanentemente em nosso horizonte e para o qual devemos olhar ao perseguir a uma vida independente dos desígnios da miséria e opressão. O samba como porto seguro, o espelho ao qual podemos nos olhar antes para não nos perdemos na dessemelhança.

Em setembro de 2020, em entrevista à GloboNews, Caetano Veloso falou de sua relação com “Onde o Céu Azul é Mais Azul”. “Eu espero um dia realmente poder cantá-la, inteira, em público. Sem medo. Com o Brasil sem medo”, prometeu. Um dia em que toda a fog se dissipará e contaremos apenas com os raios de sol que se traduzem em graça, em vida, em força, em luz.

Sobre o Autor

Simão Pessoa

nasceu em Manaus no dia 10 de maio de 1956, filho de Simão Monteiro Pessoa e Celeste da Silva Pessoa.
É Engenheiro Eletrônico formado pela UTAM (1977), com pós-graduação em Administração pela FGV-SP (1989).
Poeta, compositor e cronista.
Foi fundador e presidente do Sindicato de Escritores do Amazonas e do Coletivo Gens da Selva.

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